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A eficiência da inteligência artificial está substituindo a sensibilidade humana?

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Por Andressa Santana, Giovana Bucci e Leticia Defendi

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COMO A IA PENSA?

A Inteligência Artificial é uma tecnologia capaz de simular o aprendizado, a compreensão, a solução de problemas, a criatividade e a autonomia humanas. Porém, será que a IA é capaz de substituir o sensível humano?

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A Conferência de Dartmouth, segundo o site da própria universidade, foi organizada por John McCarthy, em 1956, e marcou o nascimento da Inteligência Artificial como um campo de pesquisa. Um pequeno grupo de cientistas e matemáticos selecionados se reuniu na Dartmouth College, nos Estados Unidos, para discutir o Projeto de Pesquisa de Verão de Dartmouth sobre Inteligência Artificial, em que eles pensaram em maneiras de tornar as máquinas mais conscientes e queriam estabelecer uma estrutura para compreender melhor a inteligência humana. 

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Entretanto, em 1950, antes do termo “Inteligência Artificial” ser elaborado, o matemático Alan Turing criou um teste em que um humano faria perguntas e tentaria distinguir se as respostas em textos são de outro ser humano ou de um computador. O experimento ficou conhecido como o “Teste de Turing” e passa até hoje por muitas análises, críticas feitas por outros cientistas e especialistas.

Alan Turing

Após o nascimento da IA, surgem novos conceitos conforme a sua evolução, alguns deles, mencionados no site da IBM (International Business Machines), são: 

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Aprendizado de Máquina (Machine Learning)

Envolve a criação de modelos ao treinar um algoritmo para fazer previsões ou tomar decisões com base em dados. Em outras palavras, para que o computador possa fazer as coisas sem precisar de um comando humano ou de uma programação para uma tarefa específica, são determinados todos os dados e os exemplos necessários para que ele identifique padrões e aprenda novas informações.

Existem muitas técnicas de aprendizado de máquinas, que variam de acordo com os problemas e os dados, mas um dos algoritmos mais populares é chamado de rede neural (ou rede neural artificial). Este modelo é moldado para simular a estrutura e a função do cérebro, utilizando camadas interconectadas de nós, representando os neurônios, que funcionam juntas analisando e processando dados complexos.

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Deep Learning

Consiste em um subconjunto do Aprendizado de Máquina que utiliza redes neurais de um modo mais aprofundado. No Machine Learning, as redes neurais apresentam uma ou duas camadas, enquanto que no Deep Learning elas possuem três ou mais camadas ocultas (frequentemente centenas). Devido a essa complexidade, esse modelo é o mais próximo do poder e da capacidade do cérebro humano.

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IA generativa

A “IA gen” é formada por modelos de Deep Learning capazes de criar conteúdos originais, como por exemplo textos longos, imagens de alta qualidade, vídeos ou áudios realistas e muito mais, de acordo com um prompt ou uma solicitação do usuário. O funcionamento da IA Generativa depende de três fases: Treinamento, Ajuste e Avaliação. 

O Treinamento começa com um “modelo base” que serve para entender a linguagem e aprender os padrões estatísticos para depois conseguir produzir variados tipos de conteúdo.

Na etapa de Ajuste, o modelo é moldado para uma tarefa específica, podendo ser: um ajuste fino, em que são adicionadas perguntas ou prompts (que a aplicação provavelmente receberá) junto das respostas corretas; ou um aprendizado por reforço com feedback humano (RLHF), em que os humanos avaliam as respostas recebidas para que o modelo possa se aprimorar.

Em Avaliação, os desenvolvedores e os usuários monitoram regularmente as produções de seus aplicativos de IA Generativa e aprimoram ainda mais o modelo para obter maior precisão nos resultados.

Foto por Elliott & Fry (1951) / Acervo da National Portrait Gallery, Londres. 

A capacidade da Inteligência Artificial é ampla, trazendo diversos benefícios para vários setores. Ela automatiza tarefas rotineiras que podem ser repetitivas e/ou cansativas, por exemplo processamentos de dados ou separação de estoque em armazéns. Além de reduzir os riscos físicos de tarefas como atividades nas águas profundas do oceano ou no espaço sideral. Também pode ser utilizada para dar suporte a tomadas de decisão, já que promove previsões mais rápidas e precisas, com dados confiáveis. Além disso, reduz os erros humanos, até mesmo impedindo-os de acontecer. Tudo isso é possível devido à sua disponibilidade de 24 horas por dia, a IA está sempre ativa.

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Apesar de todas essas funções, existem as “alucinações” da IA. Segundo a revista Exame, acontecem quando as ferramentas da Inteligência Artificial Generativa, como os chatbots ou as funções de criação de texto e/ou imagem, fornecem respostas com informações incorretas ou imprecisas. Luciano Lima, doutor em Inteligência Artificial pela USP-POLI (Universidade de São Paulo),  exemplifica: “Se a IA tiver todas as peças do quebra-cabeça, ela vai montá-lo inteiro. Mas se faltar uma pecinha, ela não pode te entregar a menos que esteja pronto. Então, a regra da linguagem é que sempre deve haver uma resposta. Como a IA não vai entregar o quebra-cabeça faltando uma peça, ela gera uma peça aleatória e a encaixa lá. Isso se chama alucinação.”

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Lima ainda acrescenta: “Existem coisas que não tem como simular em uma máquina, por exemplo, empatia, feeling. Elas estão em diversas áreas do nosso cérebro, são mais de 300 regiões conectadas. Falam em cinco sentidos, mas nós temos muito mais do que isso”. Portanto, a Inteligência Artificial apresenta muitas capacidades, mas será que ela é capaz de reproduzir emoções e sensações humanas? 

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Luciano Lima – Foto: Arquivo pessoal

Luciano Lima

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Conversar com a inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de pessoas. Seja para escrever textos, tirar dúvidas ou até pedir conselhos. Essas ferramentas foram desenvolvidas para produzir respostas cada vez mais naturais, aproximando a interação entre pessoas e máquinas. Esse avanço nos faz questionar até que ponto uma tecnologia é capaz de reproduzir emoções e sensações que, até então, eram entendidas como parte da experiência humana. Um olhar, o tom de voz, um gesto, um abraço, ou até mesmo o silêncio comunicam muito mais do que palavras, pois carregam histórias, memórias e vivências que não podem ser reduzidas a padrões de dados.

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Segundo o professor e pesquisador Luciano Vieira, a inteligência artificial não experimenta sentimentos. Embora consiga produzir respostas que aparentam ter empatia ou emoção, ela trabalha a partir de informações registradas por seres humanos e identifica padrões estatísticos para construir respostas, sem compreender o significado daquilo que comunica. Para o pesquisador, uma parte do aprendizado humano não está registrada em livros ou artigos. Ela é construída por meio das experiências vividas, das interações e da capacidade de lidar com situações inesperadas. É justamente esse tipo de conhecimento que a IA ainda não consegue desenvolver.

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A impressão de estar batendo um papo com alguém se tornou cada vez mais frequente. Quanto mais natural é a conversa, maior tende a ser a sensação de que existe alguém do outro lado da tela. Esse comportamento é conhecido como antropomorfização. Para o pesquisador Anderson Röhe, se refere à tendência humana de atribuir sentimentos, intenções e outras características humanas a tecnologias que não possuem essas capacidades.

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Röhe explica que essa percepção não acontece porque a inteligência artificial desenvolveu algum tipo de emoção, mas porque foi criada para se comunicar da forma mais próxima possível da linguagem humana. Ao adaptar o tom da conversa  e utilizar expressões como “entendo como você se sente” ou “fico feliz em ajudar”, o sistema produz uma interação que pode ser entendida como uma demonstração real de empatia. Na realidade fazem parte de uma estratégia de linguagem para tornar a interação mais fluida e confortável para a pessoa. A sensação de proximidade, portanto, não nasce da máquina, mas da forma como as pessoas interpretam essa conversa. Quanto mais convincente é a interação, mais fácil se torna esquecer que por trás das respostas, não existe uma consciência, mas um sistema treinado para reconhecer padrões de linguagem.

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Essa aproximação entre pessoas e máquinas vai além das plataformas de IA generativa, assistentes virtuais e chatbots passaram a ocupar um espaço que, até pouco tempo atrás, era exclusivo das interações humanas. O que antes exigia longos minutos de espera para falar com um atendente, hoje pode ser resolvido em poucos segundos por um sistema automatizado. A busca por rapidez e eficiência fez com que cada vez mais empresas integrassem essas ferramentas no atendimento ao cliente. 

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No entanto, essa eficiência encontra limites quando a conversa envolve situações mais delicadas. Dúvidas simples e problemas objetivos costumam ser resolvidas com facilidade, mas, quando é necessário compreender emoções, interpretar contextos ou lidar com conflitos, a resposta automatizada pode não ser suficiente para atender as necessidades da pessoa.

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Uma pesquisa realizada pela Octadesk e Opinion Box, divulgada pela Mobile Time, entrevistou 2 mil brasileiros com 16 anos ou mais, de diferentes classes sociais, e mostra que, embora os consumidores reconheçam a praticidade dos chatbots, eles ainda esperam que exista a possibilidade de recorrer para o atendimento humano quando a situação exige mais do que respostas robotizadas.

EMOÇÃO E TECNOLOGIA

Os resultados mostram que rapidez e eficiência seguem sendo qualidades valorizadas pelo público, mas não são suficientes para substituir completamente o contato humano. O dado de que 67% consideram importante poder falar com um atendente quando necessário reforça que em cenários mais complexos, a expectativa ainda é encontrar alguém capaz de interpretar o contexto e ajustar o atendimento a necessidade de cada pessoa.

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Mais do que encontrar uma solução rápida, muitas pessoas esperam ser ouvidas e compreendidas durante o atendimento. Em situações que envolvem incertezas, conflitos ou frustrações, conversar com outra pessoa transmite uma sensação de acolhimento e compreensão que um sistema automatizado ainda não consegue oferecer. Essa capacidade de decifrar a situação e ajustar a conversa é o que garante que o suporte humano continue sendo valorizado.

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Essa diferença reforça o ponto levantado pelo professor Luciano Vieira de que a inteligência artificial pode simular uma comunicação empática, mas não compreende o significado daquilo que comunica. Embora seja eficaz para organizar informações e responder assuntos objetivos, ela não compartilha das experiências que permitem interpretar situações inesperadas ou compreender os sentimentos envolvidos em cada interação. 

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O desafio não está em escolher entre humanos ou inteligência artificial, mas em compreender quais tarefas podem ser automatizadas e quais ainda dependem da sensibilidade, da experiência e do julgamento humano. Nesse limite, a tecnologia deixa de ser protagonista e passa a ocupar o papel de ferramenta.

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Anderson Röhe – Foto: Arquivo pessoal

Infográfico de autoria própria: Os limites dos chatbots no atendimento ao consumidor

Anderson Röhe

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A CRIAÇÃO ATEMPORAL DO HUMANO

A emoção tem ligação direta com a criação, do que podemos entender como criatividade, ambas são capacidades que pertencem essencialmente ao humano. A autonomia do humano permite que ele seja atemporal em suas criações, as sensações do mundo, suas conexões e a experiência são elementos que diferenciam sua criação da recriação reciclada direta e objetiva das IAs.

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Em que momento nós nos tornamos funcionários da máquina e deixamos de usar a criatividade como sujeito? Flusser, um filósofo tcheco-brasileiro, usa do fotógrafo e da máquina fotográfica como elementos para entender como se concebe a criatividade e em que momento nós nos tornamos funcionários e deixamos de ser sujeitos autônomos. Quando utilizamos a máquina apenas por sua programação, em tentativas de representar a realidade, como se ela fosse única e concreta, o homem deixa de fazer com que as imagens sirvam ao mundo, e passa a torná-las o centro do mundo. 

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Em outras palavras, surge uma relação conflituosa entre ser humano e aparelho, a máquina deixa de ser ferramenta e passa a manipular o homem, que se deixa ser guiado por suas premissas pré-estabelecidas. Essas criações da máquina são objetivas e vazias, elas fazem o que são programadas a fazerem, não há uma tentativa de reinterpretação do mundo, apenas uma impressão vaga e já esperada. Tudo o que as IAs “criam” já existe, e esse “já existente” foi uma  tentativa de decifrar o mundo em algum momento. Quando essas inteligências agrupam essas diferentes visões em uma coisa única se perde a conexão que havia entre experiência e mundo.

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Vilém Flusser

 Foto: Acervo digital.

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Há um debate amplo sobre a criação por IA e se ela está no mesmo patamar das criações humanas, o que não se pode negar é que a criação pela criatividade humana constrói algo que a tecnologia por si não consegue perdurar, a atemporalidade. Os poemas são reescritos, assim como as músicas, que são transcritas, reensaidas e contempladas, agora as imagens técnicas e robotizadas criam tumulto e se perdem no seu espaço temporal. 

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Quando a cantora nigeriana Sade escreveu em 1992 a música Perals houve um atravessamento da crítica da obra para outras interpretações do mundo, o verso “há uma mulher na Somália. Catando pérolas na beira da estrada. Há uma força mais forte que a natureza. Que a mantém viva” não só denúncia a situação das mulheres no país, mas estabelece uma conexão de trauma e experiências coletivas das mulheres em sociedade.

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Anos depois, em 2026, esse trecho da canção ganha outro sentido nas plataformas digitais, Pearls se torna trilha sonora de diversos vídeos nas redes sociais, principalmente no Tiktok, comparando a vida das mulheres no Afeganistão com as de outros países. A música volta a tocar no mainstream e ressurge como uma conexão entre as mulheres que não vivem em regimes autoritários com as que sofrem com a eliminação de seus direitos humanos e civis. É sobre esse panorama que a sensibilidade torna a criação humana atemporal, a possibilidade de uma obra ser revisitada diversas vezes ao longo da história, de ser reinterpretada e construir uma relação entre ela e o espectador de forma que quem a consome também faz parte de sua criação, as experiências humanas são o que tornam as suas próprias criações atemporais.

Sade Adu para o álbum Diamont Life, 1984. Foto: Chris Roberts

Podemos notar a temporariedade das produções das IAs com os recentes vídeos publicados no twitter pelo grupo midiático iraniano Explosive Media, supostamente aliado ao governo do Irã, que criou diversos produtos audiovisuais de inteligência artificial sobre a guerra entre o país e os Estados Unidos da América (colocar vídeo/imagens). Os vídeos são nitidamente elaborados por IAs e ilustravam, sobre traços 3D que imitavam a identidade visual do brinquedo LEGO, cenas de guerra, destruição, morte e vitória dos iranianos sobre os americanos. É inegável que essas criações foram ferramentas políticas, mas aqui se estabelece uma diferenciação clara da política dos vídeos LEGO de IA com a política da música de Sade. 

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Os audiovisuais artificiais apenas remendam e imitam elementos já dados à máquina que os cria, suas características são de criações humanas, não seria possível fazê-los sem que existisse a imagem dos LEGO, ou sem que o grupo montasse o roteiro a partir da realidade em que eles a vivem e experienciam, porém seus impactos e efeitos são momentâneos, eles se disseminaram com rapidez nas plataformas digitais em março e abril de 2026, e em Julho já não se debate mais sobre o assunto nas redes. A criação da máquina é esperada, outros milhares de vídeo parecidos poderiam ter sido criados, eles trariam o mesmo sentido, ou algum muito parecido, porque as IAs funcionam e criam pelos padrões, por números e similaridades que para ela não significam, de fato, nada, são apenas combinações, mas que denotam algo para o humano que as observa, e mesmo assim as sensações criadas são prováveis. 

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Sade precisou viver 33 anos, precisou nascer na Nigéria, se mudar para a Inglaterra, viver na pele as dificuldades e vivências que sua etnia e gênero a propunha para se relacionar de uma certa forma com o mundo, que a tocasse de um jeito específico, para que ela um dia olhasse para a Somália e enxergasse uma empatia que a ligasse com aquelas mulheres. Todos esses casos que a fizeram escrever a música são experiências individuais e coletivas que pautam a criatividade, que a fizeram escrever sobre uma perspectiva particular e sua possibilidade de multi interpretação, Folasade Adu usa da música não para criar um retrato perfeito da realidade, mas para atravessar a sua experiência com a do outro.

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Essa é a autonomia humana, de não operar como as máquinas, apenas para o que sua programação diz e o efeito que busca produzir no outro, pois nós não temos programação, e somos nós que definimos a programação delas. O humano é atemporal porque dialoga com o sensível e com as vivências, estas nunca acabam, são um looping de acontecimentos que dizem respeito a o que é ser humano independente da era, espaço tempo ou lugar geográfico. 

Vídeo Lyric e colagem que associa a música "Pearls" a situação das mulheres no Afegânistão. Reprodução: Tiktok

Vídeo feito por IA do grupo Explosive Media. Reprodução: youtrube

Coleção de Verão

 A EXPERIÊNCIA HUMANA NA PRODUÇÃO DE SENTIDO

Alguns processos vão além da simples combinação de informações, quando uma música desperta alegria, tristeza ou faz alguém lembrar de um momento da vida, o que provoca reação não está apenas na letra ou na melodia, mas também nas experiências de quem a criou e de quem a escuta. O mesmo acontece ao escrever um texto, produzir uma fotografia ou pintar uma tela. Cada escolha carrega experiências que comprometem a forma como uma pessoa interpreta o mundo. É nessa construção de significado que pesquisadores apontam que uma das principais diferenças entre a produção humana e aquela realizada por inteligência artificial.

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Em um artigo apresentado no ENECULT (UFBA), propõe um olhar diferente para além da capacidade da inteligência artificial. Os autores defendem que a maneira como percebemos o mundo passa, antes de tudo, pelo corpo. São os sentidos, as imperfeições e as experiências que nos diferencia da ferramenta generativa que busca a todo momento não errar e ser “perfeita”, mesmo quando escreve um texto ou cria uma imagem, ela não compartilha das vivências que são inteiramente humanas.

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Essa diferença pode ser observada nos próprios modelos genéricos, como o Chat GPT. Na função de conversa por voz, a ferramenta é desenvolvida para tornar a interação mais próxima de um diálogo entre pessoas. Quando questionado sobre aquilo que sente ou sobre as experiências que influenciam suas respostas, o próprio sistema informa que não possui consciência, memórias ou emoções. A naturalidade está na forma como se comunica, não na experiência que sustenta o diálogo com o chat.

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Vídeo sobre IA generativa pelo criador de conteúdo Felipe Amorim/ Reprodução: Tiktok

Bem antes de as IAs generativas se tornarem comuns, o filme Ela (2013) já explorava a relação entre pessoas e inteligência artificial. O longa acompanha o relacionamento de um homem chamado Theodor com um sistema operacional capaz de conversar de forma natural, essa questão que hoje faz parte da realidade nos faz pensar até que ponto uma relação pode ganhar significado quando um dos lados nunca viveu uma experiência humana.

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A questão levantada pelo filme não se limita ao relacionamento entre uma pessoa e uma máquina. Ela também provoca uma reflexão sobre aquilo que dá significado às relações e as criações humanas. Se a inteligência artificial consegue conversar, escrever e até sentir empatia, o que ainda diferencia essa interação daquela construída entre pessoas? 

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Uma das respostas para esse problema também aparece na filosofia. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, um dos principais nomes da fenomenologia da percepção, defende que nenhuma pessoa percebe o mundo da mesma forma. A realidade não é algo que simplesmente observamos, mas que construímos a partir da nossa relação com ela. Isso significa que uma mesma música pode despertar interpretações completamente diferentes, porque cada pessoa carrega uma trajetória própria.

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Maurice Merleau-Ponty. Foto: Acervo digital.

Maurice Merleau-Ponty

A inteligência artificial, nessa perspectiva, é uma limitação que se distancia da experiência humana. Embora consiga identificar estilos e produzir textos e imagens semelhantes a pessoas reais, ela não possui essa relação com o mundo. Não sente o tempo passar, não cria vínculos nem transforma experiências em significados. 

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Em um acontecimento recente, essa barreira entre o indivíduo e a ferramenta ficou evidente. A influenciadora digital e empresária Karen Bachini lançou o Mail Club, um clube de assinatura de papelaria, afirmando que as ilustrações haviam sido produzidas pelas próprias mãos. Pouco depois, seguidores identificaram características comuns de imagens geradas por inteligência artificial e passaram a questionar a autoria do material. Após a repercussão, a influenciadora admitiu que utilizou IA na criação das ilustrações e reconheceu o erro. 

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A reação dos seguidores mostrou que a discussão não estava apenas no uso da tecnologia, mas na expectativa de receber uma criação que refletisse trabalho, criatividade e o toque humano. Isso acontece porque as pessoas não se conectam apenas com o resultado final de uma obra, mas também com a história de quem a produziu. Um poema ou um desenho carregam marcas das escolhas e da visão de mundo do criador. Quando esse processo é substituído por uma inteligência artificial, o resultado permanece, mas não existe uma experiência vivida que deu origem a ela. 

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Mais do que questionar a capacidade técnica da inteligência artificial, essas situações evidenciam que a tecnologia também nos leva a repensar o que entendemos ser autoria e autenticidade. Em um contexto em que a ferramenta possui habilidades como criar imagens, textos e músicas podem ser produzidos em poucos segundos, a pergunta deixa de ser apenas “quem fez” e passa a ser “o que torna uma criação verdadeiramente humana?”.

Só os humanos podem resolver problemas humanos

Delegação da Cognição

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Fawwaz Habbal - Professor Sênior de Física Aplicada, Universidade de Harvard

O artigo “Comunicação sem cognição e controle: máquinas que falam com máquinas”, escrito pelo Prof. Dr. Luciano Vieira Lima e o Dr. MSc Thales Oliveira Lima, expõe uma pesquisa feita por Michel Desmurget, em 2023, que mostrava, pela primeira vez na história mensurada, que o QI médio dos filhos era inferior ao dos pais, e uma das causas é o excesso de tela em conjunto com a delegação da cognição. Esse fenômeno ficou conhecido por Efeito Flynn Reverso, devido ao estudo em que o psicólogo James Flynn documentou que o QI médio tinha uma elevação contínua ao longo do século XX, porém isso deixou de acontecer na atual era digital.

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Mas o que seria a Delegação de Cognição?

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A tese “As dinâmicas da ambiência digital e seus impactos na opinião pública”, escrita por Maria Cristina Maiello, explica que a sociedade atual é pautada pela instantaneidade e pela impulsividade, interferindo no equilíbrio cognitivo, o que permite um empobrecimento do pensamento crítico devido ao aumento do uso das tecnologias de Inteligência Artificial. 

O Prof. Dr. Luciano Lima relata que a IA não criou o problema, ela potencializou esse processo. Quando delegamos à Inteligência Artificial de produzir textos, análises, raciocínios, impedimos o nosso córtex pré-frontal de realizar o trabalho que ele deveria fazer. A consequência é cumulativa e, com o passar do tempo, ocorre uma atrofia funcional dessas capacidades humanas, visto que elas precisam ser exercitadas para continuarem funcionando. “Se a IA está pensando por você, seja por auto-completar ou de formas mais sofisticadas, como "deixo a IA escrever o primeiro rascunho e depois só edito", isso está prejudicando seu pensamento crítico e sua criatividade” comentou Christopher Dede, para o site de notícias Universidade de Harvard, The Harvard Gazette. 

O “paradoxo da dependência de IA”, segundo a revista da Fast Company, é um termo criado para explicar um fenômeno que ocorre por meio da melhora das habilidades humanas quando são auxiliadas por uma IA, mas que diminuem quando a ajuda é removida.  Para isso, o  MIT Media Lab fez um estudo em que 67 participantes foram acompanhados durante 4 semanas enquanto avaliavam manchetes e imagens de notícias, dizendo se eram reais ou falsas, utilizando, às vezes, a ajuda de alguma IA. No final do experimento, a capacidade dos integrantes de identificar notícias falsas sem assistência havia diminuído 15 pontos percentuais, em comparação com suas pontuações no começo do estudo.

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Em uma entrevista dada para a Harvard Gazette, Fawwaz Habbal, professor sênior de Física Aplicada da Universidade de Harvard, deixa claro que as máquinas não são capazes de criar soluções verdadeiramente inovadoras porque elas não possuem experiências humanas. Ele comenta sobre a preocupação que ele tem a respeito da dependência dos estudantes na IA, já que é necessário compreendermos que a Inteligência Artificial não vai resolver os nossos problemas. “Só os humanos podem resolver problemas humanos” Habbal explica.

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Especialistas em ciências cognitivas e educadores têm alertado para o risco da chamada “atrofia cognitiva". Em análises publicadas pela Harvard Gazette, pesquisadores destacam que ficamos tão acostumados com as respostas instantâneas, fluidas e polidas geradas pelas ferramentas de IA que nossa mente se torna dessensibilizada ao processo natural de aprendizagem, que envolve frustração, tentativa e erro e esforço lento. 

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Stephanie Mitchell / Fotógrafa da equipe de Harvard

Fawwaz Habbal

a sensibilidade humana é substituível?

Apesar de parecer que a empatia, as emoções e a criatividade estão sendo arrancadas e colocadas como subalternas da IA, precisamos nos recordar de que tudo na sociedade é criado por ela própria. E se nós somos os responsáveis pela criação do que tememos, o medo não deve ser levado tão intensamente por nós, ao ponto de operar como desestabilizador da nossa capacidade de compreensão da realidade e de sua mudança.

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É óbvio que uma alteração do funcionamento da realidade tão drástica como a que se deu nesse início do século 21, com as implementações das inteligências artificiais no corpo social, ampliando seu uso para constante e sua facilidade de acesso e contato com essas ferramentas, promove uma intensidade de sensações nas pessoas. Rapidamente emergem discursos que apontam para todos os lados, tenta-se adivinhar o futuro e suas realizações, ou consequências, toda essa perturbação do estado comum é, de certa forma, normal, somos seres humanos e tudo que surge para romper com o instaurado nos gera dúvida.

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O que devemos tomar cuidado é em como lidamos com essas incertezas, o processo de sua formulação em nossa mente como sociedade constantemente tende a nos levar a dois caminhos, o da destruição certeira ou do positivismo utópico. O filósofo Flusser nos direciona a pensar com mais calma sobre o cenário completo, podemos romper com esse feitiço de compreensões rápidas e vazias da sociedade sobre a situação das máquinas pelo treinamento da crítica: “Graças à crítica é que podemos esperar transcender o totalitarismo robotizando dos aparelhos […]. Não será negando a automaticidade dos aparelhos, mas encarando, que poderemos esperar a retomada do poder sobre os aparelhos”. 

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Sobre essa visão entende-se que a crítica é essencial para fundamentar a relação entre humano e máquina, a análise não retira o mérito da eficiência da máquina e seus auxílios. Ela nos esclarece sobre nossa autonomia perante as tecnologias, nos lembra que estas são ferramentas, produzidas por nós a partir da nossa sensibilidade e experiência com o mundo, vivências que criam sentidos e relações que a máquina não cria sozinha.

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A IA como ferramenta/Foto: Giovana Bucci

A partir do momento que olhamos para essa nova realidade com o olhar crítico podemos partir do entendimento de que as IAs são, em princípio, ferramentas. “Se eu pegar uma ferramenta errada, ela não vai conseguir fazer o ajuste. Mas, você pode ser hábil para pegar ferramentas, dar uma mexida nela e fazer ela funcionar”, por si só a ferramenta não age, e para que ela cumpra sua utilidade é necessário ter conhecimento sobre como ela funciona, qual seu propósito e se ele se alinha a suas demandas, comenta Luciano Lima.

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Uma das expectativas do estudioso é que haja melhor qualificação de profissionais para ensinar, nos próprios ambientes escolares de educação básica, como utilizar essa tecnologia sobre seu propósito de ferramenta. “Alguém tem que se preocupar com o que vocês estão aprendendo. Nós temos de ensinar professores, que isso aqui é uma ferramenta. Quem que ensina a usar a ferramenta? Um professor de ferramenta, um ferramenteiro, que vai explicar como usa a ferramenta.” A educação é o cerne para o desenvolvimento do pensamento crítico e da instauração do entendimento de que essa tecnologia não pensa por nós, somos nós que colocamos nossa experiência nela. A máquina não sente, não entende, ela apenas aprende uma série de combinações que só fazem sentido para o espectador pois nossa sociedade opera por sistemas de interpretação e denotação de sentido pelas vivências inerentemente sensíveis do humano.

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Não podemos afirmar que terminando de ler nossa reportagem você seja atingido por uma realização instantânea de esperança sobre o cenário das IAs, nossa proposta é que haja um exercício constante de recordação de que estamos no centro da dominação da máquina, e não ela de nós. Quando começarmos a olhar as ferramentas como ferramentas e não cérebros pensantes autônomos de conhecimento infinito, que não existem no concreto da realidade e portanto não experienciam o mundo de fato, finalmente vamos compreender, o que talvez já tenha sido escrachado ao longo do texto, de que a sensibilidade humana nunca será substituída, ela só é criada pela experiência humana sobre a realidade, o máximo que as inteligências artificiais conseguirão fazer é uma atuação vazia e baseada em dados sobre sensações que só são sentidas em completude pelos seres humanos. 

“A boa notícia é: nós somos a solução”

Luciano Lima

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As Inteligências Artificiais nos substituem?

Todas as imagens e colagens de "mãos" são autorais. Criadas e desenvolvidas pelas autoras da reportagem, todos os direitos autorais se dirigem a Andressa Santana, Giovana Bucci e Leticia Defendi

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